60 | Ilha do Desterro 🧭
Sete anos depois de ir embora, decidi, finalmente, tentar escrever sobre Florianópolis.
Uma carta de despedida a uma cidade é um obituário de alguém que um dia fomos. Devia ser um exercício para fazer de vez em quando. Como ir ao médico fazer um check-up. Como cumprir uma promessa, para quem tem fé. Como podar uma paisagem para que não nos tape a vista.
Susana Moreira Marques em Terceiro andar sem elevador: Notas de Lisboa.
#1
Já me perguntaram bem mais de uma vez por que deixei de morar em Florianópolis. É algo que também me questiono de tempos em tempos, mais ainda quando retorno para visitar. Percebo a incredulidade de quem indaga toda vez que meus olhos desacostumados reencontram tanta beleza, sendo capazes de enxergar até mais do que antes.
Desta vez, uma coincidência infeliz me esfregou na cara um dos motivos, talvez o principal, de querer afastar-me. Porque entre desilusões político-profissionais e a vontade de ver mais o mundo, também existia a vontade de caminhar por aí com menos medo apenas por ser mulher, e de poder fazê-lo sozinha. Completamente sem receio é impossível viver no feminino, não há lugar que remedeie isso.
Estas duas fotografias foram feitas no Campeche. Bem perto de onde já morei um dia e me sentia privada de viver o paraíso apenas na minha companhia, apesar de precisar diariamente daquela natureza. Porque no meio do meu caminho, assim como no de Catarina Kasten e de outras tantas mulheres que ainda resistem, havia uma “trilha”. Se é que se pode chamar assim: está mais para esconderijo de homens que nos odeiam, que nos querem mortas e contam com a conivência de uma sociedade infelizmente acostumada ao grotesco. E que esquece fácil.
A primeira foto foi feita enquanto Catarina ainda habitava este mundo—e me dói ainda mais pensar que ela estava indo nadar, algo que assim como outras tantas mulheres feitas e refeitas de água tampouco abro mão. A segunda, apesar do sol, já não. Catarina, que leva o nome de um dos Estados mais violentos para mulheres.
Ontem foi dia 25 de novembro1 e não consegui dizer nada. Estar aqui desta vez doeu bem mais do que costuma doer.
Desterrar-me desta ilha não é o único caminho, bem longe disso, há muitos motivos para ficar. É só o que fez sentido para mim. Segredo que um dia não faça mais.
#2
Retirei o texto acima do meu bloco de notas, transcrevendo-o sem qualquer edição em prol da emoção do momento em que foi escrito. Tencionava publicá-lo como legenda de um post no Instagram composto por duas fotografias.
Na primeira, caminho sorridente em frente a um casarão antigo, cujo estilo das janelas fazem lembrar as do Porto. Já na segunda, a poucos metros dali, capto os raios solares refletindo no mar com a ilha da própria ilha de fundo e alguns surfistas pelo meio. O vento soprava de Sul nas duas ocasiões, tornando melancólicos dias completamente azuis.
Desisti da publicação na altura, por vergonha de fazer ser sobre mim um feminicídio. Mas morremos todas um pouco cada vez que uma de nós é assassinada. Se calhar, afinal é sobre todas nós, sim.
Voltei a ter vontade de tornar públicas estas linhas três meses depois, a muitas milhas náuticas de distância. Me pergunto se é por já ter data para voltar, ainda que mais uma vez de visita, ou se por uma parte de mim nunca ter saído verdadeiramente de lá.
#3
Faltava escrever uma carta de despedida à Ilha do Desterro. Ilha de Santa Catarina. Qualquer nome é melhor que Florianópolis2. Talvez por não ter me despedido verdadeiramente quando pude.
Há sete anos, apetecia-me mais fugir sem olhar para trás. Porém, os seus morros cobertos de Mata Atlântica que dominam o horizonte para onde quer que se olhe, com exceção do mar, vez ou outra ainda afogam as minhas vistas longínquas. Também as situam.
Em todas as vezes que retorno tento fazer as pazes comigo mesma. Me entristeço ao contemplar a vida que poderia ter vivido, ao mesmo tempo em que sinto saudades da vida que abracei tão longe dali. E, sobretudo, lamento ter aberto mão de pertencer em qualquer lugar que seja, mesmo que um dia volte.
Quem imigra, aceita a movimentação sísmica que tira tudo do lugar. Fragmenta-se para então se expandir, mas volta e meia sai tentando colar as partes. Obriga a dar novo sentido ao que é lar.

#4
Cinco livros na estante é o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar antes da mudança para Portugal. Com dedicatórias, cheiros e marcas, Ana não consegue doá-los e decide devolvê-los para quem a presenteou. Os reencontros, alguns passados 20 anos, mexem com sua memória, fazendo-a refletir sobre o passado para poder seguir em frente.
Esta é a sinopse de Livros restantes, o último filme escrito e dirigido por Márcia Paraíso. O longa foi gravado em Florianópolis, mais especificamente na Barra da Lagoa. Denise Fraga é quem protagoniza a professora de Literatura.
Em entrevista, a cineasta lembra de um diálogo que existe no filme: “o mar é o que nos une”. Ouvi exatamente o mesmo de uma amiga quando estava prestes a partir. Deixamos de nos falar com o tempo.
#5
Na última vez em que estive na Ilha, enquanto escolhia alianças de casamento, a designer me olhou e disse que finalmente sabia de onde me conhecia. Respondeu que era precisamente desta newsletter, para meu espanto.
Conversa vai, conversa vem, anel que entra, anel que sai, ela me pergunta dos meus dias em Florianópolis. Para depois, finalmente, indagar se escreveria sobre a cidade. Achei curiosa a pergunta, porque indiretamente sempre escrevo sobre Desterro—ou, pelo menos, a partir deste ponto de vista. Sinto que tentei, inclusive desta vez, mas ainda não consegui.
Nas seções a seguir, elenco os meus lugares preferidos, uma espécie de mapa afetivo da cidade, além de outros tantos que ainda quero conhecer, evidenciando o tanto que a ilha mudou. E eu também. Há como reencontrar-se a meio destes caminhos?
(Enquanto revisava e agendava o envio desta edição, vi que o ateliê de joias publicou o City Guide: Florianópolis).
#6
Em todas as ilhas que já visitei, encontro o mesmo olhar melancólico de quem olha para o mar. E espera. Alguém chegar ou partir. Às vezes a si próprio.
Em Praia do Futuro (2014), filme do realizador brasileiro de origem argelina radicado em Berlim, Karim Aïnouz, escolhido para o Cineclube News from Home, o protagonista Donato, interpretado por Wagner Moura, trabalha como salva-vidas na praia homônima do litoral cearense. Enquanto contempla o oceano, ele pergunta ao irmão mais novo o que faria caso ele desaparecesse no mar.
Anos mais tarde, a conversa é de certa forma continuada em uma praia sem mar, do outro lado do oceano, onde Donato passou a viver. Mas é só numa carta que não se sabe se foi enviada que ele consegue dizer o que tentou uma vida inteira:
“Te escrevo para dizer que eu não morri, eu só voltei pra casa, aqui nessa cidade subaquática tudo para mim faz mais sentido, eu não preciso me esconder no mar para me sentir em paz, nem preciso mergulhar para me sentir livre.”
#7
“(…) Outra coisa digna de nota é que o ciúme parece ser endêmico entre os maridos, o que se é um tanto tirânico, é pelo menos desculpável”, escreveu o navegador francês Louis Isidore Duperrey, que esteve na Ilha de Santa Catarina por duas semanas em 1822.
Outros visitantes também notaram o sentimento possessivo dos ilhéus em relação às esposas. Tais percepções estão contidas no livro Ilha de Santa Catarina – Relatos de viajantes estrangeiros nos séculos XVIII e XIX, de Martim Afonso Palma de Haro pelas editoras UFSC e Lunardelli, que concentra as publicações na Europa de 20 naturalistas, botânicos, exploradores e militares. Todos homens, também caracterizaram as mulheres como “bonitas e graciosas em suas maneiras”.
(O memorial erguido à Catarina Kasten na Universidade Federal de Santa Catarina, onde ela estudava e eu também estudei, já foi depredado três vezes).
#8
Se não tivesse saído de casa aos 17 anos, não viveria entre tantas dúvidas. Não viveria entre mundos.
Tampouco teria este tipo de vida dupla, sentindo-me um pouco como uma farsa em cada uma delas. Inadequada, talvez, em todas.
Não viveria com uma balança nas mãos a pesar o que vale a pena e o que não vale, sem nunca enxergar um número, muito menos uma resposta.
Penso nisso com frequência.
Mas, se não tivesse ido, não seria quem sou.
FLÂNEUSERIE 💃🏻
[Recomendações de lugares por onde andei, testei e aprovei]
— Pedacinho do Céu, o restaurante da octagenária Capitã Zenaide com nome auto-explicativo tanto pelas pessoas, quanto pela comida e, claro, a paisagem de uma das praias mais bonitas do Sul da Ilha;
— Paradigma Cine Arte, o cinema independente mais gostosinho que casa bem com o Café François antes ou depois da sessão (pedir sopa de cebola!);
— Rancho do Bastião, para cair no samba aos domingos, após o pôr do sol no Sambaqui;
— Mercado Público e arredores, em especial o boêmio Centro-Leste;
— Costa da Lagoa, um passeio de um dia inteiro que inclui passeio de barco, trilha e até cachoeira.
SALVO EM ONDE QUERO IR 💾
[Onde ainda não fui, mas salvei na lista para ir]
— Yume, uma bike-café para ver o sol nascer na praia, das 5h às 9h;
— Livraria Latinas, especializada em gênero, infância, questões étnico raciais, direitos e literatura, em Santo Antônio de Lisboa;
— Candieiro, novo espaço musical no Rio Tavares, para fazer companhia ao ótimo Choro Xadrez;
— Centro Cultural Veras, com exposições de arte e yoga;
— Museu O Mundo Ovo, da pintora, desenhista, escultora, ceramista, tapeceira e poeta catarinense, Eli Heil, pouquíssimo conhecida e dona de uma obra de difícil classificação.
→ Tem alguma recomendação? Deixa pelos comentários!
UMA ÚLTIMA VISTA D'OLHOS 👀
[Inspiração para espreitar antes de ir embora]
— Catarina Craesbeck, uma das Bruxas da Inquisição Portuguesa investigadas pela brasileira Lola Ramos, que também contemplou mulheres além-mar;
— Santuário de Nossa Senhora do Desterro, em Portugal, bem próximo à Serra da Estrela;
— Pitanga em porcelana, apaixonada por esta marca de joias que recria à mão frutas brasileiras, em especial a peça que recria a Amelie Poulain na versão Mata Atlântica;
— O Sotaque Azul das Águas, música clássica de Luís Tinoco sobre o mar que separa países unidos pela língua. E também Astrolábio e seus versos sobre a saudade dos viajantes;
— O Desterrado, escultura de António Soares dos Reis inspirada no poema de exílio de Alexandre Herculano, as Tristezas do desterro.
Obrigada pela leitura! Não foi intencional, mas publicar esta edição perto do Dia das Mulheres fez algum sentido.
No mais, é bom matar as saudades de aparecer na tua caixa de entrada. Foi um longo inverno, mas a primavera se avizinha.
Bom proveito e até a próxima edição!
Um abraço com carinho,
“Pra quem esticou os pés a primeira caminhada em casa já é sempre uma despedida”, Gabriela do Amaral, poeta brasileira radicada em Portugal.
Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.
O nome Desterro, dado à Ilha de Santa Catarina, é uma homenagem à Nossa Senhora do Desterro, a santa que protege aqueles que tem saudades de casa e que precisam enfrentar travessias. No dicionário brasileiro, desterro significa local de exílio. Florianópolis já foi Desterro, que por sua vez já foi a Villa de Nossa Senhora do Desterro, que por sua vez já foi a Ilha de Santa Catarina, que por sua vez foi Meiembipe, nome dado pelos indígenas da família tupi-guarani ao litoral. As informações são do site Onde está Desterro?, que possui três percursos para dar a conhecer histórias escondidas da cidade.




nunca vai ser possível saber quem seríamos se tivéssemos permanecido. as variáveis da vida são muitas. o que dá para saber é que quem vai sempre leva um pouco de quem fica. e quem fica guarda um pouco de quem vai.
Que edição mais linda, Gabi! Dá pra entender a sua relação com a água, que é parecida com a minha, apesar de eu não vir de Florianópolis.